Futurismo musical indígena, um salve pra retomada.

Por Paulinho Sacramento:

Hoje é dia 7 de fevereiro, Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas que simboliza desafios e resistência para preservação de tradições culturais milenares. O Dia Nacional dos Povos Indígenas, celebra a cultura e a história de um povo que é a própria história brasileira. 

Parafraseando minha querida amiga e cantora indígena Brisa Flow, inicio esse texto com um “Salve pra retomada”, uma retomada da percepção da música da América Latina através do Ativismo da Música Indígena Contemporânea. 

A música é um dos elementos formadores da cultura brasileira e a sua presença no país é mais antiga do que comumente se imagina. Vale ressaltar que, muito antes chegada das tropas portuguesas por aqui, os povos indígenas já utilizavam o registro sonoro nos rituais, festas e celebrações culturais, seja a partir do canto ou de suas rezas.

Porém, a música indígena brasileira não se restringe somente ao uso ritualístico e no interior das comunidades. Pelo contrário, observa-se, nos últimos anos, que cantores e compositores de diferentes etnias no país têm dedicado os seus trabalhos na música à divulgação nacional e internacional da luta e da resistência dos povos indígenas do país.

A cultura indígena é complexa e diversa, e talvez por isso pareça algo incompreensível em sua totalidade, e talvez seja. Principalmente para uma sociedade que ainda tem um olhar carregado de estereótipos, uma visão colonialista e ultrapassada.

De acordo com o censo 2010, o Brasil tem pouco mais de 800 mil pessoas que se declaram indígenas, distribuídos em 225 povos e quase 60% vivem em áreas rurais ou em aldeias, o que mostra o apego e a importância da terra em suas vidas, um assunto recorrente entre os artistas da nova música indígena.

Nos últimos anos esses artistas, em sua maioria jovens que reafirmam sua identidade através de sua arte, começaram a chamar a atenção pela qualidade de suas músicas, mas ainda sofrem com a falta de representatividade no cenário musical brasileiro, porém a qualidade musical dessa nova cena tem falado mais alto, e com o amadurecimento cada artista ganha seu espaço, reafirma seu estilo e se coloca de uma maneira mais adequada. 

Embora muitos temas sejam comuns em suas letras, há uma diferença clara entre o trabalho de artistas que ainda vivem em aldeias, como por exemplo o rapper Kunumi, ou o duo Oz Guarani, com quem vive em um ambiente urbano, como a própria Brisa Flow, cujo trabalho é mais identificado com o movimento do Futurismo Indígena, um termo que apesar de muito usado, ainda é pouco compreendido e recentemente tem gerado muitas discussões.

A música indígena contemporânea é múltipla, com várias nuances, vários estilos e diferentes gêneros musicais, Renata Tupinambá da rádio Yandê nos fortalece com alguns exemplos: “Tem o funk do Nory Kayapo e o forró do Mokuka Kayapo. Os rappers Bro Mc’s, Oz Guarani, Sallú Kuikuro, Ademilson Umutina, Matsi Waura Txucarramãe, Djuena Tikuna, Wera MC,   Gean Ramos Pankararu na MPB indigena, e Wakay na tradicional fusões de contemporâneas. Dayu Puyanawa, Mulheres Huni Kuin, Márcia Kambeba, Djuena Tikuna e muitos outros. 

E além dos estilos também há a diversidade da língua, com músicas cantadas em português, Kayapó e Guarani, com uma variedade de temas que vão desde músicas de protesto até canções românticas e espirituais. O espaço para a música indígena aos poucos tem aumentado e cabe a nós artistas, compartilhar e fortalecer esse cenário super potente e importante que é a música originária brasileira. 

Marichiweu =  Venceremos novamente.

Saravá!

*Paulinho Sacramento é Cineasta, Artista residente do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Gestor Cultural e Diretor do Rio Mapping Festival e da Casa de Cultura Saravá Bien.

Parafraseando: SIM/SP

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