Saravá Cultural: núcleo de resistência e camaradagem

Por Francis Ivanovich:

Estive a pensar sobre o sentido mais profundo da existência do Núcleo Saravá Cultural. Quando fui convidado por Paulinho Sacramento, em abril de 2021, ainda no auge da pandemia, para integrar o grupo, não pensei duas vezes. Sabia que o núcleo agregava potentes fazedores de cultura e, sobretudo, camaradas humanistas formados na diversidade da vida.

Paulinho Sacramento conhecia desde os tempos da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, onde fui estudante e mais tarde trabalhei, um camarada de luta, desses que você dialoga fácil e produtivamente, sem essa coisa nociva do utilitarismo, fruto do pensamento neoliberal, em que o outro ou a outra, só nos serve enquanto possibilidade de realização dos nosso próprios interesses. Em outras palavras, o venenoso egoísmo. Essa doença que é uma das desgraças do nosso tempo; usar alguém ao nosso lado e depois descartá-lo como bagaço da laranja.

A essência do Núcleo Saravá Cultural fui compreendendo a partir das nossas reuniões online. Conversas informais que revelavam integrantes muito interessantes e do bem. Companheiros e companheiras realmente preocupados com a Cultura, o bem estar da coletividade, o respeito, mesmo que naquele momento, estivéssemos passando por problemas sérios como falta de trabalho, problemas de saúde, emocionais, de relacionamentos, incerteza sobre o futuro, solidão, sob um regime fascista e criminoso que pretende se perpetuar no poder.

Aliás, este núcleo não poderia ter outro nome. A palavra Saravá, de uma sonoridade tão linda, que etimologicamente teve sua origem na dor, quando nossos irmãos africanos escravizados pronunciavam a palavra portuguesa salvar, e sob à influência da fonologia do idioma banto, a recriaram dizendo Salavá e, mais tarde, “Saravá”, é muito significativa.

De certa maneira, o Saravá tem nos salvado, possibilitado a comunhão entre seus integrantes, promovendo troca de energias, coragem, ânimo e sonhos. Ao estar num grupo como este, nos sentimos mais fortes, menos sós, convidados a uma luta justa. Como nos avisa o comandante Guevara: “sonha e serás livre de espírito; luta e serás livre na vida”.

Na inauguração do Comitê Cultura Gera Emprego, primeiro evento presencial do Núcleo, após o auge da pandemia, em 13 de março de 2022, minhas reflexões se confirmaram. O Núcleo Saravá Cultural tem um papel muito importante na comunhão dos artistas e produtores culturais no Rio de Janeiro.

O núcleo é um espaço de diálogo, debate, investigação e promoção de ideias que realmente melhore a vida dos trabalhadores da cultura. Cada integrante tem a reponsabilidade de cooperar com essa luta, propondo ideias factíveis, o que nitidamente se mostrou muito possível, durante o lindo evento. O núcleo não é lugar de estrelismos, mas companheirismo, onde cada um dos integrantes é importante, e possui o compromisso de luta e cooperação.

Cada um, dentro das sua possibilidades de tempo disponível, é combatente do bom combate; camarada fraterno e potente que tem a capacidade de oferecer o seu melhor, sua força, seu abraço, sua história.

Tenho a clareza de que temos um caminho incrível a percorrer, sempre com independência, livres de práticas nefastas de uma ultrapassada política cultural que apenas almeja o poder pelo poder.

O sentido do núcleo está em cada integrante. Afinal, somos humanos, iguais, e o que nos move é a Vida, a Cultura e Arte. Nossos melhores sentimentos se potencializam no pertencimento e na fraternidade, na União. Por isso somos Saravá!

*Francis Ivanovich é jornalista, autor, diretor de teatro e cinema, produtor cultural, criador do prêmio nacional de dramaturgia Flávio Migliaccio, e integrante do Núcleo Saravá Cultural.

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