A partida de Míriam Mariah, voz brasileira de nuestra América*

Por Luã Reis – Na última quarta-feira, dia 23 de março, noite de lua cheia, a cantora Míriam Mariah faleceu aos 68 anos. Nos deixando um legado inestimável. 

Míriam era compositora, intérprete e pesquisadora musical, tendo fundado o Grupo Tarancón e o Raíces de América. Os dois conjuntos especializados na música popular da América Latina e do próprio Brasil.

A voz de Míriam apresentou ao grande público as obras de artistas consagrados do nosso continente, como os chilenos Victor Jara e Violeta Parra, os argentinos Mercedes Sosa e Atahualpa Yupanquii e o cubano Silvio Rodrigues. Ou ainda musicando grandes poetas brasileiros, como Thiago de Mello: “Faz escuro (já nem tanto)/vale a pena trabalhar./Faz escuro mas eu canto/porque a manhã vai chegar.”

Mas também clássicos menos conhecidos do folclore do Peru, da Nicarágua, de Porto Rico, da Guatemala, da Bolívia, da Colômbia, do Panamá, da Venezuela, quase todos os países do continente foram cantados por ela: “Si yo no hubiera nacido/en la tierra en que nací/estaria arrepentido/de no haber nacido allí (…)/Bolívar en Venezuela,\en Cuba Maceo y Martí\y en República Argentina\el glorioso San Martín.\Ya le dieron a sus pueblos\patria y media libertad\y a mi borincana tierra\sabe Dios quien le dará.”

Os arranjos únicos respeitavam as tradições, ao mesmo tempo que os abrasileiravam, tornado assim um mecanismo de integração político cultural da Américo Latina. A Pátria Grande cantada em verso e prosa: “Mi vida, los pueblos americanos

Desses povos americanos, ela cantou o único o drama das trabalhadores e trabalhadores dos campos e cidades da América, mas ao mesmo tempo plural. Camponeses que pedem para “não mandar a geada”, “Los indios la miran la lluva sin hallar qué hacer” ou o “negrito que duerme pues su mama está em cama trabajando y no la pagam”. Operárias como Amanda que em “calle mojada, corriendo a la fábrica”, só tem cinco minutos para ver o amado Manoel, mas nesses cinco minutos a vida é eterna.

Povos únicos na sua diversidade cuja beleza negra e indígena, Míriam celebrava: “você me chamou de negro, sou negro da linda cor.” La gente que diz “Soy libre, soy bueno y puedo querer”;  

Míriam cantou a terra latino-americana: a cordilheira, o deserto, as matas, as praias e os sertões. Toda beleza natural da terra onde a “rosa se muda do campo para o deserto”. Terra del Fuego e da chuva, do vento e do mar, das manhãs e madrugadas, que brilha o sol e a lua.  

Na quarta que Míriam partiu era a última noite de lua cheia, no entanto ela não apareceu, se recolhendo entre as nuvens, em respeito e devoção a quem a cantou em toda sua majestade:

Minha lua navega serena
Vai de Ipanema ao céu do Irã
Para ela a moda não é tudo
A guerra não duvida o dia de amanhã

Minha lua corre apaixonada
E a passarada segue o seu corcel
Oh lua, oh lua rainha
Oh a lua é minha, é de quem quiser

Oh a lua é lua das princesas
E com mais certeza será dos garis
Dos cantores, dos trabalhadores
Será dos atores quando a noite cair

E será também dos prisioneiros
Será dos canteiros e do chafariz

Oh lua, a lua é da cidade
Da humanidade e de quem quiser
Oh lua, a lua é da cidade
Da humanidade e de quem quiser

Minha lua corre apaixonada
E a passarada segue seu corcel
Oh lua, oh lua rainha
Oh a lua é minha, é de quem quiser

( Canto Lunar)

*Texto libremente escrito em portunhol, la lengua franca de Latinoamerica.

Luã Reis é Professor de História, comunicador y latinoamericano

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