Crítica: Chá regado a desejos e lembranças – crítica do espetáculo Bordados

*Por Pedro Alonso:

Bordados, espetáculo que está em cartaz no Teatro III do CCBB, integra o projeto “Ciclo das Mulheres”, da Cia. Amok, que aborda temas de caráter universal a partir do olhar, da voz e de vivências femininas. O texto de Ana Teixeira foi estruturado a partir de depoimentos reais de pessoas comuns, colhidos ao redor do mundo pelo documentarista francês Yann Arthus-Bertrand. Com direção de Ana Teixeira e de Stephane Brodt, o resultado dessa costura é um delicado tecido de desejos, cicatrizes, sonhos e lembranças, compartilhados por cinco mulheres árabes, em cumplicidade com a plateia, na hora do chá.

A montagem teve sua temporada interrompida em 2020 devido às restrições sanitárias impostas pela pandemia. Agora que o Brasil, aos trancos e barrancos, conseguiu imunizar aqueles que querem se proteger, os que têm responsabilidade diante do coletivo, agora que estamos negociando nossa volta à “normalidade”, somos abalados por notícias e imagens de uma guerra que afeta material e simbolicamente o planeta inteiro.

Em volta de um álbum de fotografias, desenvolve-se o primeiro fio narrativo da trama, quando as personagens da vida de Nesrine se materializam em cena, as mulheres de sua família, cada qual com suas crenças e valores, desde a mais conservadora até a mais avançada nas ideias e nos ideais, ambas compartilhando o mesmo espaço de troca, sem interferência masculina, onde podem cantar, rir, confessar traumas, ilusões e desilusões.

A dramaturgia é organizada de forma que os contornos de personalidade de cada uma delas estejam muito bem delimitados, para que o conflito se instaure no discurso: Khadijah é mais afeita à obediência às leis e à família, mais intransigente a qualquer modificação nos costumes; Hiba, no sentido oposto, desquitou-se de seus maridos; Walla encontrou a felicidade quando conheceu o amor de sua vida no dia do casamento; Fathmeh viveu sua infância com a liberdade que só os meninos conhecem e Massarat amargurava as dores da violência doméstica.

Nesse emaranhado de narrativas e sotaques fortes, o texto, ao mesmo tempo que remete a uma cultura distante da nossa, onde as tradições são mantidas a pulso firme, também cria laços de identificação quando enxergamos, nessas figuras, uma vontade de viver e de encontrar, na experiência particular de cada uma delas, razões para superarem os medos e os anseios de serem quem são, discutindo sobre o sentido da vida, sobre filhos, sobre casamento, sobre destino. Nesrine afirma, em determinado momento da trama, que não gostaria de ser mulher, num meio em que os homens determinam e controlam o futuro de si e de todas. Já Fathmeh recorre às memórias de uma infância feliz e inquieta como contraponto a esse discurso, sintetizando que, em sua morada, o “homem” da casa é ela. Histórias de ensinamentos que devem ser passadas às futuras gerações. Gestos de ouvir, escutar e assimilar, algo que talvez precisemos resgatar, visto que estamos o tempo todo com os fones de ouvidos plugados nos celulares, tablets e afins, imersos na virtualidade tecnológica.

Sandra Alencar, Flávia Lopes, Jacyam Castilho, Carmen Frenzel, Vanessa Dias e Vania Santos atingem resultados satisfatórios, impregnando as personagens de força, doçura, tristeza, austeridade e leveza, cooptando as atenções da plateia com um desempenho altamente técnico, executando deslocamentos mínimos, objetivos e explodindo em gestualidade.

Penso esse espetáculo no atual contexto de guerra que o mundo nunca deixou de viver. Penso o quanto somos bombardeados por narrativas jornalísticas oficiais, que, supostamente, se auto-intitulam isentas, mas que reforçam o discurso da força hegemônica opressora, que alimenta as agências internacionais de notícias. O que realmente sabemos da cultura dos povos do oriente médio, sem sermos influenciados por opiniões estereotipadas que as mídias insistem em reforçar? Não sabemos de absolutamente nada! Ou talvez o nosso conhecimento seja insuficiente, unilateral ou eurocêntrico. Penso no confronto na Síria, nas famílias que tiveram que abandonar suas vidas e recomeçar do zero em outro país, sobreviver em outra língua. Penso num sem número de guerras em países do continente africano, com dedo dos Estados Unidos, sem que sequer saibamos quando teve início. Teoricamente, o que conhecemos dos fatos ocorridos na guerra entre Rússia e Ucrânia, vem filtrado pelas lentes da Casa Branca, dos homens que fazem de tudo para manter a máquina imperialista em funcionamento, e que temem que outras nações cresçam e estabeleçam outras regras. Quando eu via aquelas mulheres dançando no palco, celebrando a vida e afirmando que ela é feita de dores, mas também de superação, eu vislumbrava uma atmosfera de cumplicidade e afeto.

Bordados é um espetáculo de escuta. A linguagem da encenação, o resultado obtido pelo conjunto, envolvendo o figurino, o cenário, a luz e a sonoridade nos remete para uma outra atmosfera, um outro ritmo, muito menos acelerado que o do ocidente. A ambientação de uma sala em que as mulheres da plateia ocupam lugares, em volta do espaço de atuação, reforça a ligação simbólica de união, apesar das distâncias espaciais e culturais que separam personagens e público. Tudo é ritual. Todas as exclamações são sagradas, da mesma forma que o ofício do artista, que nos transporta para longe de nós mesmos, enquanto estamos todos em comunhão, compartilhando a alegria de assistir uma encenação limpa, rigorosa e plena de intensidade.

*Pedro Alonso é ator, professor e crítico de teatro. É criador do site Olhar Crítico. Possui graduação em Teoria do Teatro pela Unirio e, atualmente, faz Formação Pedagógica em Artes Visuais pela Anhanguera. É integrante do Grupo de Pesquisa Estudos Comparados de Literatura e Cultura (GECOMLIC), da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Ministrou cursos livres no Centro Cultural da Justiça Federal e no Centro de Estudos Afrânio Coutinho (CEAC-UFRJ). Possui textos publicados no canal Artéria no Instagram. Colaborou para a revista eletrônica Questão de Crítica, e jurado do I e II Concurso Nacional de Dramaturgia Flávio Migliaccio.

Site: https://pedroalonso.com.br/

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