A grave crise do Teatro e a formação de plateia

Por Francis Ivanovich:

O Teatro é um dos segmentos culturais que mais sofreu e sofre com a pandemia e o atual desgoverno. A essência do Teatro é composta por dois elementos imprescindíveis: atores e plateia. É possível realizar Teatro sem texto, palco, luz, som, figurino, etc., mas é impossível o Teatro acontecer sem atores e plateia. Entretanto, é preciso lembrar que atores sem plateia, passam fome, e povo sem teatro, fica mais pobre.

O mestre Bertold Brecht nos alerta sobre o teatro:

Vocês, artistas que fazem teatro
Em grandes casas, sob sóis artificiais
Diante da multidão calada, procurem de vez em quando
O teatro que é encenado na rua.
Cotidiano, vário e anônimo, mas
Tão vívido, terreno, nutrido da convivência
Dos homens, o teatro que se passa na rua.

A convivência, o encontro entre artistas e público, seja onde for, mesmo na rua, é o milagre essencial do teatro, é a própria vida. Este encontro é geralmente transformador, como um martelo que molda a realidade.

Jamais esqueci minhas primeiras experiência teatrais como espectador, como esta arte me afetou como pessoa humana. Tanto, que passei a escrever, fazer e produzir para o teatro, como um sacerdócio, muito difícil, vale dizer.

Há mais de 18 anos venho trabalhando um teatro visando a formação de plateia junto à juventude, visitando escolas públicas e particulares de todo o país. Essa questão da formação de plateia julgo fundamental.

Através da Cia Teatral Ensinoemcena, que Já se apresentou em mais 1500 escolas em diversas cidades brasileiras, desde 2004, pude constatar como é primordial levar o teatro para dentro do ambiente escolar, apresentando bons espetáculos, sem o apelo fácil, o óbvio, que tenham como proposta o debate sobre questões que atravessam a vida dos jovens, seus familiares, suas comunidades.

Um programa nacional, através de editais, que financie o teatro para visitar escolas e ambientes de trabalho poderá revolucionar a formação de plateia no Brasil. Somente através da experiência teatral, o jovem ou o adulto terá condições de constatar sua mágica, e que a vida não é somente uma tela iluminada, a rede social, mas sobretudo o contato humano vivo, o diálogo entre as pessoas, a busca pela solução dos problemas, a análise crítica da realidade. A arte e a educação não podem continuar separadas, elas se complementam de maneira profunda, isto deve ser revisto.

Agora mesmo estamos participando com uma de nossas peças – Profissão Poesia – da quarta edição do Circuito Ler Para Valer, no Píer Mauá, até 15 de maio, no Rio de Janeiro. Esta peça que escrevi e dirigi, há mais de 15 anos, discute o que um jovem vai fazer da vida ao escolher uma carreira profissional. Um tema aparentemente simples, mas que carrega em si o futuro de uma pessoa que está entrando na vida adulta.

Sabemos o quanto é difícil escolher um caminho na vida. Esta peça apoiou centenas de jovens ao longo desses 15 anos, na escolha do seu caminho, mesmo contrariando pressões externas. Neste evento, verificamos que a juventude está distante do teatro, preferindo outros meios. Isto é grave.

Os jovens, que descobrem o Teatro, são transformados quando estão diante de questões que falam com ele de verdade. Nesses 18 anos, debatemos com os jovens questões como drogas, gravidez na adolescência, consumismo, liberdade, violência e até, mais recentemente, suicídio. Hoje, por exemplo, nosso trabalho faz parte do projeto Atitude Positiva, da Firjan, debatendo o Bullying, por exemplo.

O Teatro é mais do que entretenimento, é uma arte revolucionária, capaz de despertar o espírito crítico que, por vezes, está adormecido dentro de cada um de nós. Dialogar com a juventude é o caminho para termos uma plateia adulta que valorize e respeite o Teatro. Aí sim, deixaremos de fazer Teatro para os amigos e para a própria classe.

A nova geração está se tornando refém da tecnologia, de uma internet que a cada dia se transforma numa loja de produtos irresistíveis, produzindo uma massa obediente e pouco crítica. Os jovens Julgam que o teatro seja uma coisa chata, velha, ultrapassada, jovens esses, principalmente das periferias, que sequer tiveram a chance de estar diante de uma peça teatral. Considero perigosa essa coisa do Teatro Online. Isto não funciona. Isto violenta o espírito autêntico do teatro, pois não possui o ingrediente essencial, que é comunhão artistas e público no ato do encontro humano. Esse meio de fazer Teatro acaba prejudicando o próprio Teatro. Certamente muita gente discordará, pois a Pandemia foi o período em que o teatro online se notabilizou. O que vimos no computador não foi Teatro, foi audiovisual da pior qualidade.

O novo governo que o Brasil terá em 2023 – que os deuses do teatro assim o permitam – deve criar um programa urgente de socorro ao Teatro visando a formação de plateia, aliado a um programa de acesso ao livro, e acesso à uma internet soberana.

Essas ferramentas poderão contribuir muito para uma educação de qualidade, e aí sim, a médio e longo prazo, criar as bases para uma nova sociedade brasileira realmente soberana, crítica, capaz de dizer NÃO aos manipulares da vida, do voto e da nossa soberania.

Enquanto isso não ocorre, o Teatro, que tanto amamos, agoniza, assim como os demais segmentos da Cultura, vítimas nos últimos anos de uma política que só deseja ver o povo ajoelhado diante de falsos mitos e profetas.

Resistiremos!

O Teatro jamais morrerá.

*Francis Ivanovich é jornalista, autor teatro, cineasta e criador e produtor do prêmio nacional de dramaturgia Flávio Migliaccio.

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