A esperança da Cultura em Lula

Por Francis Ivanovich:

Na última quinta-feira, 02 de junho de 2022, artistas e produtores culturais gaúchos tiveram a oportunidade de um encontro com o pré-candidato à presidência, Lula, em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Ao lado dele, no palco, estava entre outros convidados, o Secretário Nacional de Cultura do PT, Márcio Tavares, cujo trabalho considero muito positivo até o momento, e que conduziu o evento. Acompanhei com atenção o discurso de Lula, que pode ser conferido no Youtube.

Falando de improviso, no melhor estilo Lula, o pré-candidato reafirmou o desejo de espalhar pelo país comitês de Cultura. Ao fundo, Geraldo Alckmin assentiu com cabeça, num gesto demonstrando concordar, assim como a plateia que aplaudiu a ideia. Lula completou o raciocínio afirmando que não é mais possível que a Cultura brasileira fique restrita ao eixo Rio-São Paulo, no que se refere à atenção da mídia e acesso aos recursos.

De fato Lula tem razão. O Brasil, país continental, necessita democratizar e conhecer sua Cultura tão vasta e complexa. Lembrei na hora da música de Aldir Blanc e Maurício Tapajós, eternizada na voz de Elis Regina, “Querelas do Brasil”, quando diz: “O Brazil não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazil“.

A ideia dos comitês pode muito contribuir para esse processo, e Lula utilizou um termo genial, a “Abolição da Cultura“, no sentido da conquista de sua liberdade. Sim, a Cultura está presa à correntes que a impedem de mostrar toda vitalidade e possibilidades de expansão em direção ao povo brasileiro.

O atual quadro é grave. A Cultura brasileira teve no atual desgoverno o mais cruel dos carcereiros, foi encarcerada, torturada, quase calada. Por muito pouco a Cultura não foi levada à guilhotina.

Não podemos ser ingênuos. Não será uma tarefa fácil. A Cultura sofre há tempos de muitos males, e uma deles é a tecnocracia paralisadora, doença grave cujo sintoma predominante é uma burocracia excludente, burra, que acaba por dificultar o fazer e o ser artístico e cultural.

Nos diversos órgãos que cuidam de setores culturais importantes, por exemplo, não é raro encontrarmos técnicos que não são afeitos a Cultura, convivendo com técnicos que realmente amam a Cultura. Criando um desequilíbrio que emperra o sistema.

São pessoas que foram aprovados num concurso ou indicadas politicamente para ocupar determinada função que irá interferir na Cultura, no entanto, em suas vida privadas não tiveram uma relação carinhosa e direta com as diversas manifestações culturais e artísticas.

É muito comum encontramos essas pessoas ao lado de bons técnicos, em determinados órgãos, que estão ali apenas para bater o ponto e garantir o salário no fim do mês. Parecem máquinas destituídas de sensibilidade, frias, tratando o produtor cultural como se fosse um despacho qualquer. Pessoas nitidamente refratárias à subjetividade. Resumindo, pessoas no lugar errado, que só se interessam no próprio bem-estar. Isso precisa mudar.

A Cultura necessita de gente realmente comprometida com uma política antenada com a realidade e com o povo, capazes de contribuir para o aperfeiçoamento de mecanismos de incentivos e controles, e apoio real aos artistas e produtores. A ideia de comitês pode muito favorecer a essa transformação urgente, a fim de que o Brasil possa ter uma política cultural mais inteligente, pungente, dinâmica e presente na vida do povo faminto também por Cultura.

A esperança da Cultura em Lula é grande, mas é preciso entender que ele está nos convidando a participar ativamente desse processo, para sermos cérebro, braços, mãos e coração, e não ficarmos sentados esperando pelo milagre da criação. Depende de cada um de nós também os novos tempos para a Cultura.

A Cultura espera de Lula a chave da sua liberdade, mas ele ao abrir essa porta, nos dá a responsabilidade sobre o que iremos fazer com ela.

*Francis Ivanovich é jornalista, cineasta, autor, produtor cultural, criador do prêmio Nacional de Dramaturgia Flávio Migliaccio, e coordenador de comunicação do Núcleo Saravá Cultura e Comitê Cultura Gera Emprego.

(Foto de Ricardo Stuckert)

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