Eu me lembro…


*Por Isa Albuquerque: (foto de Murilo Santos)

Eu conheci o cineasta Murilo Santos através de seus documentários sobre a questão fundiária, no Maranhão, entre 1977-78, período em que comecei a compreender o mundo e a subir na “corcunda do vento”. Murilo vivia em São Luís, no final dos anos 70, e migrou para São Paulo, em meados dos anos 80, mas costumava participar dos movimentos culturais, em São Luís, promovidos pelo DAC – Departamento de Assuntos Culturais, da UFMA, juntamente com outro ‘superoitista’ Euclides Moreira Neto. Ainda vivíamos sob o longo eclipse das liberdades democráticas.

Ernesto Geisel era um presidente militar em trajes civis, o Brasil ainda sonhava com a volta do irmão do Henfil e a nossa geração anos 70-80 estava ávida por informações. Eu frequentava um grupo de canto coral, na Igreja de São João, liderada pelo Padre Marcos Passerini, um monsenhor italiano alto e corpulento, ativista de direitos humanos, que defendia as comunidades periféricas contra os ataques da grilagem urbana. Ele chegou a ser espancado com lambadas de facão, por soldados da polícia militar, quando se colocou diante dos tratores para impedir a demolição de casebres da comunidade do Coroadinho. Jamais se queixou e nem se deixou intimidar diante de seus agressores.

No salão paroquial de sua Igreja, onde o nosso coral São João ensaiava sob a regência do maestro Fernando Mouchereck, Padre Marcos abrigava os meninos de rua, que perambulavam por ali. Ao fundar a Escolinha de São João, o padre conseguiu alfabetizar muitos e até resgatar alguns deles, da delinquência. Costumava educar seus fiéis através do exemplo de sua vida franciscana, em sua opção preferencial pelos pobres. Apoiou a produção coletiva de um documentário intitulado “Quem é Esse Menino”, um filme-denúncia em Super 8 contra o profundo abismo social formado pelo neoliberalismo crescente que tornava “ os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres” numa profunda e crescente concentração de renda constantemente lembrada pelo jornal 25 de Março, mimeografado na Igreja de São João.

Padre Marcos era um integrante da ala progressista do Catolicismo. Sua atuação política era estreitamente ligada à missão evangélica. Os frades e os padres como Marcos Passerini, Xavier Mopeaux, D, Pedro Casaldáliga, D. Luciano Mendes e D. Helder Câmara foram os heróis do alvorecer da nossa da juventude, em São Luís.

A Igreja de São João, que abrigava diversas tendências políticas perseguidas pelo regime militar e apoiava aquela nossa juventude em busca de cultura política, no campo da Esquerda, engajou-se nas Artes. Exposições, como “ A Gororoba” promovida pelos irmãos Murilo e Joaquim Santos, no casarão da SMDDH – Sociedade Maranhense de Defesa dos Direitos Humanos reunia fotografias sobre as comunidades carentes e nos ensinava a ver que a pobreza, a fome eram determinadas pela política e não deveriam ser toleradas.

E ofereciam o olhar alternativo, à margem dos critérios determinados pelas instituições. “ Oração Latina”, de Cesar Teixeira, composta em 1985, elevou a nossa voz como a força de um hino. Arrisco-me a declarar que o hino do Estado deveria ser substituído por Oração Latina, música que ganhou um impacto extraordinário na voz de Roberto Brandão, outro ex-integrante do Coral São João. Quando eu lembro de Oração Latina ouço-a na voz deste querido e talentoso amigo de adolescência. Nós acreditávamos na força transformadora da Arte e empunhávamos as nossas câmeras Super Oito contra as injustiças sociais.

Murilo Santos, sempre generoso com seu conhecimento, nos ensinava os primeiros passos para realização cinematográfica no Cineclube Uirá, através de muitos cursos em campo. Era o nosso mestre na técnica do modo de fazer.

A exibição de filmes em Super 8 e 16 mm mostrava uma realidade que não saía nos jornais: em Viramundo(1964), Geraldo Sarno trata das migrações internas impulsionadas pelo desemprego e pela grilagem rural. Sarno, falecido recentemente( 1938-2022), nos deixou Sertânia, uma obra primorosa sobre o universo do Cangaço, em que ele se apropria do tempo com o estilo e a arte de um mestre da narrativa. Nesses tempos velozes, quem se dedica à Grande Arte precisa conhecer os filmes de Geraldo Sarno. Da obra de Murilo Santos, o filme que mais marcou a minha experiência como cinéfila foi “ Bandeiras Verdes”, sobre o povo caboclo que povoou o vasto território do interior maranhense.

Eu via no cinema de Murilo Santos a história dos meus antepassados, que migraram de Grajaú para fundar a pequena cidade de Lago do Junco, na região de Cocais. Posso dizer que o Cinema me cativou desde a primeira infância, em Lago do Junco, quando meu pai montou uma sala de exibição em 35 mm, no galpão de um armazém bem em frente a nossa casa, onde a nossa família de pecuaristas fazia estoque de grãos. Naquela sala tosca que o meu pai Isaac Ferreira Sobrinho, juntamente com o cunhado projecionista, Macyr Jansen, chamou de Cine Vitória, toda a cidade costumava assistir à projeção dos filmes de faroeste produzidos pela indústria americana além das maravilhosas comédias da Atlântida.

Eu lembro do meu pai voltando de viagem a Pedreiras, montado em seu cavalo, com as latas reluzentes no alforje. Nada me deixava mais feliz. E o Cinema me chamou de volta com os filmes e as aulas de Murilo Santos. O meu desejo de fazer Cinema foi consolidado com a realização do Festival Guarnicê, criado pelo então diretor do DAC, Mario Cella. Após alguns anos o professor Euclides Moreira Neto passou a exercer essa função. O Guarnicê foi minha primeira casa Cinematográfica, com uma programação audiovisual diversificada e alternativa que rompia o isolamento geográfico em que vivíamos.

Os cineastas, como Murilo Santos e Fernando Duarte, em breve visita a São Luís, para ministrar um curso, nos inspiraram a criar os nossos próprios filmes, ensinando-nos a técnica e exibindo filmes jamais vistos no circuito comercial. Essa expansão de conhecimento elevou a minha capacidade de realização. Dediquei-me ao jornalismo televisivo, na antiga TVE, e procurei desenvolver, paralelamente, uma produção videográfica. A digitalização da imagem tornou possível o acesso à carpintaria cinematográfica. Juntamente com o meu companheiro de então, José Henrique Gandra, adquirimos um equipamento VHS em Manaus.

E com essa equipe mínima, a aventura começou: acompanhamos o grupo de meninos da Escolinha de São João em uma viagem de ônibus até Brasília e nos hospedamos, junto com eles, no Estádio Mané Garrincha, onde dormíamos no chão, em colchões improvisados.

Registramos o “Encontro Nacional de Meninos e Meninas de Rua” que teve como ponto alto, uma visita ao Congresso Nacional. Centenas de crianças e adolescentes subiram pela primeira vez a rampa do Congresso para um protesto contra a condição social injusta a que estavam submetidas. Naquele Movimento de denúncia contra a exclusão social das crianças que se amontoavam nas ruas das grandes e das pequenas cidades, nós encontramos o irmão do Henfil. Betinho havia voltado do exílio e estava lá, no centro do palco, protestando contra a pobreza e o abandono das milhares de crianças e adolescentes” – Poderiam ser meus filhos” – dizia ele desolado – ocasião em que lançou sua campanha contra a fome representada por um prato vazio.

O Brasil precisava de Betinho. Aquele foi um movimento histórico que inspirou o revolucionário Fome Zero, nos governos do PT e que moveu o Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil, da 13ª para a 6ª posição.

Décadas depois, o país está de volta ao mapa da fome e nós retomamos a luta contra o fascismo. Precisamos de uma reedição das campanhas humanitárias que o protofascismo brasileiro, orquestrado pelo capitalismo internacional, vem destruindo desde o golpe de 2016. A Arte Cinematográfica é necessária ao bom combate a ser travado na reconstrução do país. E para terminar essa breve intervenção, eu cito o grande poeta maranhense Ferreira Gullar: ” a Arte é necessária, porque a vida não basta.”

*Isa Albuquerque é Cineasta.

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