Uma vida sem sentidos – crítica do espetáculo Amanda

Por Pedro Alonso (Olhar Crítico):

O solo Amanda tem atuação e direção de Rita Clemente e está em cartaz no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil. O texto de Jô Bilac, que, em linhas gerais, gira em torno de uma mulher que, aos poucos, vai se dando conta da perda de seus sentidos, percorre os palcos brasileiros desde 2015, e, durante a pandemia, sua versão online foi transmitida pelo canal do SESC.

Amanda é uma mulher perturbada por uma fatalidade que se abateu sobre ela de modo repentino: inicialmente, ela perde sua audição. Encontra-se completamente surda. Daí em diante, há um jogo de imagens que ela evoca, que atravessa uma angústia sobre sua nova condição física e seu comportamento diante das pessoas que a cercam, principalmente a família e os amigos.

O cenário sugere uma sala de estar decorada com mesas e cadeiras de linhas clássicas, ao gosto de uma certa classe média tradicional, com xícaras, bules e louças empilhadas pelo espaço. Muitos desses objetos estão tombados, rachados, quebrados, o que dá uma pista que, dentro daquele ambiente, alguma coisa fugiu do controle, como se o real estivesse sendo estilhaçado ou carcomido pelos acontecimentos que vão sendo verbalizados como uma enxurrada. Conforme Amanda vai adentrando no fluxo, que, constantemente, lhe escapa, ela problematiza o encadeamento dessa narrativa, porque só ouve a voz que vem do seu pensamento.

Eu fiquei preso nesse jogo estético, que contrasta os efeitos de real, ou os resquícios dessas aparências, na visualidade do espetáculo, com elementos que materializam o colapso emocional, gerado pelo quadro de instabilidade que toma conta de si. Amanda precisa se agarrar a detalhes para fingir que sua rotina continua a mesma, tanto para Lúcio, seu marido, quanto para Emilly, a prima dele, e, com isso, manter um teatro em que ela própria veste uma máscara de mulher compreensiva, sorridente, agradável, um bibelô delicado que só faz gargalhar como truque para não ser desmascarada.

Ao passo que as perdas dos sentidos físicos e metafóricos vão se acumulando, e Amanda já não sente mais o paladar, nem o olfato, os sintomas no corpo tornam-se mais visíveis. Os deslocamentos pelo espaço cênico perdem a naturalidade do andar e Rita passa a performar o gesto, onde sentar, levantar e caminhar são ressignificados, a partir da condição de mulher fraturada, fissurada, cindida. Os caminhos de Amanda são formados por cacos de louças quebradas. Ela mesma tornou-se isto: uma coisa esfacelada que quer chorar, mas não consegue; alguém que perdeu-se de si própria.

A atuação de Rita Clemente emana segurança e precisão nos pequenos detalhes. É bonito quando você sente que, passados sete anos, desde a estreia, em Belo Horizonte, ainda há desejo e vida que se movimenta no palco. Tudo vibra, nos quase cinquenta minutos de duração da montagem. Mesmo que nos percamos no fluxo contínuo e ininterrupto de suas falas, mesmo que não saibamos mais onde ela está, nem do que está falando, no ápice da vertigem de uma mulher que age sem sentir, nosso olhar e nosso interesse estão presos ao corpo e aos recursos que ela desenvolveu como linguagem, mapeados no palco de forma orgânica, plástica e austera.

A metáfora visual do espetáculo; os ecos da trilha sonora, que reverberam uma quebradeira ininterrupta e os efeitos da iluminação sobre o espectador, que determinam climas de tensão interessantes, fazem de Amanda índice de algo que nos afeta, de maneira bastante visceral, para que possamos, na sequência, resgatar, readequar, rever, reaver, reviver. Fiquei me perguntando ao final do espetáculo, após sua perda da visão: e agora? O que mais falta a lhe acontecer? Até que ponto sua humanidade foi ou será reduzida? Que histórias ela pretende narrar daqui pra frente? Ou será que nada mudou, e ela ainda se deixa oprimir por esse universo fútil, infértil e parasita, do “bom gosto” duvidoso e irritante da classe média, engajada a mergulhar o país no caos em que vivemos até os dias de hoje? Fica aí a pergunta no ar.

Ficha Técnica

Direção Geral, Concepção e Atuação: Rita Clemente

Texto: Jô Bilac

Interlocução Artística: Diogo Liberano

Trilha Sonora Original: Márcio Monteiro

Iluminação: Régelles Queiroz (Gato de Luz Iluminação Cênica)

Fotografia: Priscila Natany e Bob Sousa

Assistência de Produção (BH): Analu Diniz

Produção: Clementtina Cultura

Designer gráfico: Gabriel Bittencourt

Assessoria de Comunicação: LAGE ASSESSORIA/Fernanda Lacombe

Serviço:

Data: de 10 de agosto a 04 de setembro (de quarta a domingo)

Local: Teatro III do CCBB RJ (R. Primeiro de Março, nº 66, 2º andar, Centro, Rio de Janeiro)

Horário:  Quarta a Sábado, às 19h30; Domingo, às 18h.

Capacidade: 70 pessoas

Duração: 57min

Classificação: 14 anos

Ingressos: R$ 30,00 (inteira)/ R$ 15,00 (meia), emitidos na bilheteria do CCBB ou pelo site eventim.com.br

https://www.instagram.com/olharcritico21/

*Pedro Alonso Pedro Alonso é ator, professor e crítico de teatro. É criador do site Olhar Crítico. Possui graduação em Teoria do Teatro pela Unirio e, atualmente, faz Formação Pedagógica em Artes Visuais pela Anhanguera. É integrante do Grupo de Pesquisa Estudos Comparados de Literatura e Cultura (GECOMLIC), da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Ministrou cursos livres no Centro Cultural da Justiça Federal e no Centro de Estudos Afrânio Coutinho (CEAC-UFRJ). Possui textos publicados no canal Artéria no Instagram. Colaborou para a revista eletrônica Questão de Crítica.

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