Cultura decorativa

Por Francis Ivanovich:

Os jornais afirmam que a campanha do presidente Lula está mapeando artistas que o apoiam, para somarem forças na reta final da campanha. Certa vez o presidente Lula, numa entrevista, afirmou que se sentia envergonhado ao subir num palanque e ver elencos das novelas da 19h e 20h no palco. Ele nem as conhecia direito.

Sim, os artistas, principalmente os midiáticos, são alvo importantes na disputa de um pleito. O problema é que os artistas, sejam eles populares ou desconhecidos, acabam funcionando como peças decorativas e isto não está certo.

Tenho acompanhado atentamente os candidatos, percebo que a palavra Cultura não é citada como deveria. Sem dúvida, Lula é o candidato que mais fala em Cultura. O vaidoso e delirante Ciro jamais a pronuncia; os demais então, silêncio absoluto.

Recentemente decidi apoiar o candidato a deputado federal pelo PT do Rio de Janeiro, Wadih Damous por assumir compromisso de trabalhar na Câmara Federal em prol da Cultura, num evento recente. Eleito, eu o cobrarei

A questão é que não basta um candidato assumir compromisso com a Cultura, é necessário que o segmento cultural também se faça presente e eleja representantes capacitados para funcionarem como eficientes interlocutores com o poder político. Isso é fundamental para que as necessidades, problemas e soluções para a Cultura sejam debatidos, a fim de que o segmento gere emprego, renda e contribua para uma sociedade mais crítica e democrática.

Há companheiros sérios pensando a Cultura, mas há também gente no lugar errado falando pela Cultura. Há gente que atua na política Cultural que jamais produziu uma atividade cultural concreta, subiu num palco, realizou uma obra, sabe o que é realmente importante para os artistas, produtores, os técnicos, os trabalhadores da Cultura. Precisamos urgentemente de gente certa atuando na Cultura. E cabe ao setor cultural apontar esses interlocutores para atuar junto ao poder político.

O Cinema, por exemplo, não pode continuar nas mãos de poucos. A ANCINE está mergulhada numa crise. Os editais precisam ser realmente democratizados. Um exemplo de boa política cultural foi realizada no governo da nossa companheira Dilma. O Filme Marte Um, que está indicado ao Oscar, por exemplo, é o resultado de um edital de 2015, último edital afirmativo do Brasil, que contemplou três longas-metragens produzidos ou dirigidos por cineastas negros.

O Teatro brasileiro, nem se fala, arte das mais sofridas no país, desde a pandemia. O Brasil precisa de uma política nacional de apoio ao teatro. O Estado deve financiar esta atividade tão importante e que contribui muito para o fortalecimento de um cidadão crítico. Sem falar no abandono das demais atividades artísticas e culturais populares.

Participei de alguns encontros da Cultura com candidatos recentemente, e confesso minha decepção. São eventos mais decorativos do que propositivos. Infelizmente, a Cultura continua sendo vista como objeto de decoração. Uma bela palavra pronunciada como efeito. E isso precisa mudar urgentemente.

A Cultura não é mobília, decoração, Cultura é alicerce de uma Nação.

*Francis Ivanovich é produtor cultural, cineasta, e jornalista.

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