Da arquitetura da destruição à arquitetura da criação, da construção e da resistência.

Por Adair Rocha – Professor Titular da FCS/UERJ e Professor PUC-Rio, Pós-doutor pela UFRJ, Autor de Cidade Cerzida.

O tratamento atual da gestão governamental à cultura no Brasil é o sintoma do tratamento político ao conjunto do governo: desrespeito constitucional ao direito da população de acesso às políticas públicas.

Por quê a cultura é o primeiro ministério a ser “canetado” para o seu fim? A resposta é histórica, como narra o documentário de Peter Cohen, de 1989: a “Arquitetura da destruição”, que mostra a dupla face do Nazismo, sendo de um lado admirador da arte tecnizada, inclusive como instrumento e equipamento de propaganda, e, de outro lado, ela precisa ser destruída, quando nas mãos da oposição e de artistas, pode trazer risco para seu projeto “higienizante” e “purificador”.

No nosso caso, destaque-se a pesquisa já em livro: Guerra cultural e retórica do ódio, crônica de um Brasil pós-político, que instrumentaliza a visão do mundo bélico, sustentado pela retórica do ódio, que ordena o culto ou perspectiva da morte, comprovadas nas ações do governo, como no negacionismo à pandemia que nos assolou. E no campo específico da cultura vive-se, literalmente, o processo de destruição institucional. A resistência e a criação têm sido a saída, com as Leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo.

Na introdução à introdução, é preciso uma referência mínima à história da primeira parte desse título tão forte para a situação drástica que estamos vivendo, não apenas no sentido cultural. Que fique claro, desde agora, que esse artigo não se dedicará ao estudo profundo do documentário sueco, dirigido por Peter Cohen, em 1989.

Inspiram, no entanto, o uso que é feito do uso da complexidade das imagens, na obsessão do regime de Hitler no que se chamava embelezamento e purificação da nação, que ocasiona a destruição do povo judeu e de quem mais não se encaixava no perfil nacional, chegando ao extermínio artístico de outros povos.

Muitas linguagens vão se debruçar sobre as significações do processo de tratamento com a arte e sua tecnicidade que vai destruir e, ao mesmo tempo, fazer o uso mais rigoroso do marketing e da perfeição da propaganda do Estado Nacional como comprova a obra de arte cinematográfica de Leni Riefenstahl “O Triunfo da Vontade”. Lá na década de 30, no Congresso de Nuremberg, que vai elaborar leis com imagens tão nítidas e perfeitas, do exército e das personalidades que geram a imagem perfeita que justifica o absurdo da arte e da vida que a produz.

Peter Cohen junta o estudo primoroso e sua tradição judaica para sistematizar documentalmente na força audiovisual, a significação do crime sistematizado e premeditado de povos que se encantaram com a vida.

O sistema totalitário se capacita a conhecer tanto a arte, que a destrói no que traz de risco e usa para fortalecer e justifica sua popularidade às custas da “destruição”.

Pisando o chão brasileiro, defronta-se com algo inédito que é a guerra bolsonarista em curso. Trata-se do aprofundamento do gabinete do ódio, sustentado por fake news,com argumentos falsos, lançados como se fossem verdadeiros, como o anticomunismo e a corrupção.

Esse tema, entre outros, está sendo tratado com o pesquisador João Cezar da Costa Rocha, com a primeira publicação: Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político. Como explica o próprio autor, o bolsonarismo implica em uma visão de mundo bélica, expressa em uma linguagem específica: a retórica do ódio, cuja consequência imediata é o culto ou a perspectiva da morte, observada em várias ações do governo, como o tratamento da Pandemia Covid-19 e seus comentários, aparentemente, absurdos, no entanto, a normalidade de um pensamento sistêmico que vai explicar o conjunto do governo e sua movimentação na direção do controle autoritário, como a retomada da Lei de Segurança Nacional  – LSN e restrições institucionais.

Os sintomas aparecem no tratamento de políticas públicas, de formas restritivas, com a “destruição” do Ministério da Cultura e suas instituições históricas, desfocadas.

Teoricamente, o fortalecimento da gestão pública, inspirada no gabinete do ódio tem sua referência no “teórico” Olavo de Carvalho. O desenvolvimento dessa Arquitetura está amparado num sistema comunicacional poderoso e abrangente cujas redes têm no Whatsapp a sua alimentação ´poderosa que, inclusive, surpreendeu os setores democráticos nas últimas eleições presidenciais, com robôs e notícias falsas que geram, gradativa e sistematicamente, a cultura do ódio.

O grande desafio é e será o aperfeiçoamento de teorias e métodos que aprofundam essa “guerra”, sem, ainda, o completo domínio da criação de outro imaginário, na estratégia de vitória do processo democrático e cidadão.

Analisemos elementos dessa guerra no domínio institucional das não políticas públicas de cultura.

A partir de que contexto histórico, cultural e político vamos situar o evento Bolsonaro, na destruição da cultura brasileira, nos seus diversos aspectos e espectros?

São centenários extraordinários: a Semana de 22, Independência do Brasil, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Leonel Brizola e um sem número de centenários invisíveis que expressam a diversidade que se constitui na força da identidade brasileira.

Há também a retomada institucional do Ministério da Cultura – MinC na sua vocação de protagonismo da população, vez que não é papel do Estado fazer cultura e sim, criar condições para que a força cultural floresça e aconteça com visibilidade, a partir de políticas públicas.

Cultura como direito dita a gestão do MinC, das conferências e toda rede de diversidade cultural e sua produção nos mais diferentes níveis. Políticas públicas ganham sua encarnação institucional. Sistema, plano e orçamento na interação com os entes federados geram novas perspectivas, em sua dimensão de investimento e desenvolvimento.

A Cultura Viva e seus correlatos são construídos nesse contexto, que faz do Brasil, por exemplo, um dos grandes produtores no audiovisual, com número de filmes, de grande porte, jamais visto, assim como a rede da diversidade das tradições populares.

A perspectiva ampliada no conceito de construção de políticas públicas supõe ou pressupõe a orientação Estado e Sociedade para muito além dos convênios entre empresas públicas e privadas. Implica, certamente, na relação da compaixão que sensibiliza na direção do não protecionismo, mas do protagonismo diverso, plural e múltiplo da sociedade, desigualmente, organizada, mas com garantia, cada vez mais ampla, de seus direitos.

Isso, naturalmente, pressupõe a existência do Estado Democrático, disposto a enfrentar em sua tríplice representação: executiva, legislativa e jurídica, as contradições reais, do ponto de vista econômico, político e cultural, da estrutura maior que rege a sociedade, cujos pressupostos autoritários, garantem o binômio gerador das guerras e do ódio: a relação acúmulo/escassez que interfere, diretamente, na relação direito/acesso.

Aqui se verifica a ruptura, cujo primeiro prejudicado, que se aprofundou no fenômeno, aparentemente extracampo do processo histórico que narramos na Pandemia da Covid-19, foi o trabalhador da Cultura, que tem como destino e potência, juntar pessoas, gerando aglomeração, ora transformada em risco.

2016 – o início da destruição

O período pós-golpe, seguido da “inimaginável gestão”, mira, diretamente, o papel de cultura, como fomentador do pensamento e do agir democráticos.

O primeiro ministério a ser excluído da administração pública federal, após o Impeachment da presidenta Dilma Rousseff, foi o da Cultura. Forte reação no Brasil inteiro, ocupando todos os prédios institucionais do MinC, os trabalhadores, os criadores, artistas da cultura brasileira, mostraram sua cara. Vivi um dos mais fortes desafios, como gestor, no histórico e simbólico Palácio Gustavo Capanema. De Caetano a Seu Jorge, passando por Erasmo Carlos, Teresa Cristina e toda galera do Hip Hop, reuniu milhares de pessoas em longa vigília, que me rende ainda um processo em Segunda Instância.

O resultado dessa resistência criadora foi a volta do Ministério da Cultura, embora numa sequência institucional fragilizada, de tal forma que na eleição de 2018, foi, facilmente, reduzido à Secretaria de qualquer ministério.

Atitudes criminosas com a história institucional da Cultura são tomadas com naturalidade dos sistemas mais autoritários, para quem a cultura é sempre um risco. Simbólica e, realmente, constrangedora é a nomeação para a Fundação Palmares de um capitão do mato, negro, que entra negando Zumbi, na expressão clássica do NEGACIONISMO em curso no conjunto do governo e em suas instâncias comunicacionais, na maior parte, falsas e criminosas, a alarmada fake news.

A “Arquitetura da destruição” vai ganhando corpo com a sequência das nomeações para o comando da Secretaria, com propaganda explícita de Goebbels do papel nazifacista da propaganda a que se reduz a cultura.

Pode-se notar o IPHAN, por exemplo, com a intenção de desqualificar e descaracterizar seu papel histórico de preservação territorial da arte e da paisagem, dessa vez, afeito aos interesses das expansões territoriais do mercado e da lógica da construção civil.

Quando os esclarecimentos jurídicos não deixam dúvidas sobre a inexistência das propaladas “pedaladas fiscais”, razões do Impeachment.

O mesmo ocorre com a FUNARTE, a Casa Rui Barbosa e toda tradição de pesquisa, cursos e criação coletiva e pública, aí desenvolvidas, até o auge do descaso que facilita incêndios como o do Museu Nacional e da Cinemateca.

Há também o discurso destrutivo da forma adjunta de se enfrentar o baixo orçamento do MinC, que foram as leis do incentivo fiscal, criadas desde o Governo Sarney e sua última forma a Lei Rouanet, usada para desqualificar o trabalho dos artistas e criadores, como se fosse formas de desvios ou gastos sem controle do dinheiro público, sobretudo se se referisse a obras, espetáculos ou eventos ligados a críticos do governo.

Sobre essa questão, vale outro esclarecimento, pois se trata de uma política cultural que reflete ou revela contradições adjacentes da fragilidade orçamentária, historicamente do Ministério da Cultura. Uma primeira “confusão” vem da incompletude do poder público em suas obrigações com o funcionamento e/ou distribuição para a prática e difusão cultural. Outra, não menos “confusa” é a ambiguidade da origem do “dinheiro público” comum e “dinheiro bom”, pois a “isenção” sobre empresas particulares passa, muitas vezes, a ideia de que se trata de investimento privado na cultura. Na verdade, está em jogo o conceito de política pública que não se confunde com investimento de marketing, para além do que significa investir em cultura e em política pública.

E é, finalmente, nesse alambrado que a narrativa da disputa público/privado se estabelece. Reside aí, portanto, o grande equívoco do poder público que por falta do conhecimento, é chamado de desvio ideológico.

Nesse vácuo da “Arquitetura da destruição”, inspiração do Nazifacismo, infelizmente, presente até hoje, no entanto, é possível detectar o processo social de produção democrática, também em seu caráter histórico, vive sua continuidade, seja na resistência institucional, seja no cotidiano da cidade e da sociedade, onde as necessidades se colocam concretamente.

Certamente, vale narrar o processo em curso no Brasil, quando as linguagens da arte são atingidas, mortalmente, em duplo aspecto: política e sanitariamente.

Tal processo merece uma análise mais detalhada possível, radiografando o espelho institucional, com atores e atrizes das gestões e sua relação com as outras dimensões dos saberes culturais, que revelam contradições resultantes das lutas de sobrevivência, na relação com os meios acadêmicos e com a interação também institucional da multicentralidade da cidade. É a cultura subjacente à produção social do pensamento, em sua dimensão de significação da vida.

Continuidade é, portanto, da inteligência dialética, resultante e provocadora de resultados lineares do ponto de vista da lógica do acúmulo gerador de escassez, desafiador do direito à cultura e à vida, e acesso decorrente dos poderes, estruturalmente, produzidos. Diante disso, cultura como investimento é o busílis.

Vejamos como esse processo tem se dado no Brasil de 2016 para cá, situando pessoas “gestoras” e números daí decorrentes e os atropelos das lutas pela sobrevivência que circulam e circundam essa que a expressão mundial da diversidade, feita de tradições, remoções, religiões, transposições humanas de regiões, países e continentes que geram  convivências, casamentos, temperos, espiritualidades, místicas, cores e “raças” que passam sem pedir licença para governos desgovernados, portanto, autoritários.

Tempos de desgoverno da Cultura na atualidade da gestão pública no Brasil

Nos dois anos de mandato do vice Temer, como já minimamente descrito, há uma intervenção sistêmica dos setores ou linguagens culturais e laborais que exigem, de um lado, a retomada do MinC, com ministros, na sequência, com diálogos anteriores da cultura, como Marcelo Calero, ex-secretário da cultura da Cidade do Rio de Janeiro, como também Sérgio Sá Leitão, com igual passagem, tendo sido também membro do Ministério da Cultura com Gil. Ainda que com gestão positiva aqui citada, a volta do MinC no Governo Temer, no entanto, não portava prioridade orçamentária.

Infelizmente, nunca se aplicou no Brasil com tanta evidência o que historicamente se chama “Arquitetura da destruição” de toda memória que representasse força histórica de continuidade ou fortalecimento democrático.

Na verdade, essa situação de desmonte e de destruição, contraditoriamente, explicita o poder e a força da cultura que vão pra além das dimensões mercadológicas, cujos sintomas são apontados como causa, isto é, uma definição limitadora, em si mesma da cultura, como os eventos massivos que constituem “grandes artistas”, nas diferentes linguagens, como sempre os têm tratado.

Fica claro na atitude destruidora da cultura, a sua significação que debela a identidade da diversidade. Isso ameaça as formas centralistas de poder que confrontam as estruturas autoritárias e orgânicas de sociedade, ressignificando instituições e linguagens, sujeitas, elas mesmas aos critérios democráticos e plurais, de sua função de espelho e transparência para a percepção da sociedade, como podemos perceber, em seguida.

Radiografia de um modelo demolidor

Inicialmente, no Ministério da Cultura, que desafia seu aumento orçamentário, na medida do avanço do processo democrático (cite-se aqui, a ordem de grandeza orçamentária do MinC da França, com o segundo maior orçamento da União), é possível se perceber, claramente, a intencionalidade da cultura e sua demanda orçamentária.

Nesse contexto, torna-se, absolutamente clara, a postura de todo e qualquer governo autoritário e centralizador em sua decisão imediata de eliminação do MinC, como ocorreu logo após o Governo Dilma, sequencialmente.

Assim, analisando desde o Governo Dilma, como já salientamos, anteriormente, o confronto do governo nazifacista, não só agiu do ponto de vista orçamentário, mas sobretudo interferindo na infraestrutura orgânica que responde ao dia a dia.

Logo de início, o Governo Temer bateu de frente com as pautas dos ministros anteriores, na sequência do Impeachment da Dilma, a primeira canetada do governo foi a extinção do MinC, que provocou o primeiro impacto governo e sociedade, com o processo “Ocupa MinC” (ocupação que ocorreu em todas as instituições do Ministério da Cultura), movimento vitorioso na conquista da volta do Ministério da Cultura.

Na gestão da passagem do que não foi para o que viria, estava Marcelo Calero, que assumiu a Secretaria de Cultura após 5 negativas de convites feitos a cinco mulheres, entre elas: Daniela Mercury e Eliane Costa. Aquele aceitou, inicialmente, ser secretário do Governo Temer. Calero trazia uma boa folha corrida de gestão da Secretaria Municipal de Cultura, que sucedeu a Sergio Sá Leitão, inversamente, acontecido na gestão nacional de cultura, quando este sucedeu a Calero.

No caso de Sergio Sá Leitão, Ministro da Cultura de julho de 2017 a dezembro de 2018, pode-se dizer de alguém que conhecia os meandros administrativos, vez que já havia passado pelo mandato de Gilberto Gil, no Governo Lula, por instituições como o BNDES, na pasta de Cultura, como já foi dito também SMC/RJ.

No entanto, essa passagem positiva de ambos pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio, encontrou dificuldades na gestão em curso, à época com a saída de Calero, com intervenções indevidas da gestão da União, como na Bahia, em torno de uma das instituições do MinC, o IPHAN, com possível ameaça de Geddel Vieira Lima, também Secretário do Governo Temer, investigado pelo STF e pela Comissão de Ética da Presidência.

Entre os citados, Roberto Freire, Presidente do Cidadania, assume o MinC em 18.11.2016, e deixa o Ministério em 18.05.2017, teve um curto mandato. Embora, com duração parecida com o tempo de mandato de Calero, mas esse sendo percebido por projetos e polêmicas criadas com o conjunto de governo avesso ao pensamento cultural de interferência no desenvolvimento, na gestão e na estética de um governo sem interesse no protagonismo, na diversidade plural e na complexidade da sociedade brasileira.

A narrativa dessa passagem de gestão que, embora, estabelecida a partir da lógica golpista do Impeachment, esclarecida, atualmente, pela justificativa da inexistência das chamadas “pedaladas fiscais”, o momento seguinte ataca, sistematicamente, a cultura e, merece observações dos sintomas e causas do processo de construção democrática.

Do “esperançar” de Paulo Freire, à cultura como “significação”, de Terry Eaglaton, é prazeroso e politicamente formidável a cotação da epígrafe da publicação de Lincoln Santos (SANTOS, 2022, 7) sobre Celso Furtado:

“Saí a passeio pelo meu sertão de origem, em plena estação seca, e dei asas à fantasia, antecipando a transfiguração daquelas terras ásperas mediante a proliferação de oásis onde se repetiria o milagre da multiplicação dos frutos do trabalho humano. É caminhado à noite, sob o céu estrelado, que o sertanejo se deixa arrebatar pelo orgulho de sua terra. Os ventos que prolongam os alísios avançam céleres pelo horizonte aberto, e o mundo inteiro parece estar ao alcance da vista”.

Retrato nítido da destruição

É claro que uma gestão negacionista, identificada com práticas nazifascistas, não iniciaria seu governo sem extinguir o MinC. Essa instabilidade vem da convicção política de negar ou destruir tudo que vá questionar ou criar ambiguidade política em seu “gado”. Isso ajuda a explicar o grande número de “gestores” que passou por tal secretaria que se intitula da cultura, mas se aloja, finalmente, no Ministério da Cidadania.

Eis os nomes e sua duração:

1) Henrique Pires (1º/01/2019 a 21/08/2019)

2) José Paulo Martins – Interino (21/08/2019 a 09/09/2019)

3) Ricardo Braga (09/09/2019 a 06/11/2019)

4) Roberto Alvim (07/11/2019 a 17/01/2020)

5) José Paulo Martins – Interino (17/01/2020 a 04/03/2020)

6) Regina Duarte (04/03/2020 a 10/06/2020)

7) Mario Frias (23/06/2020 a 30/03/2022) – Saiu para ser candidato

8) Hélio Ferraz de Oliveira. (30/03/2022 até os dias atuais)

O que pode ser considerado instabilidade governamental, na verdade, é um sintoma das dificuldades geradas pela incongruência de gestão, de um lado, e história viva e afirmativa da cultura viva, apesar de uma incompletude do poder público e a necessidade de afirmar a negação.

A narrativa se traduz em números. O orçamento desde o impedimento

2016 – 1,94 (um bilhão e noventa e quatro milhões)

2017 – 1,90 (um bilhão e noventa milhões)

2018 – 2,00 (dois bilhões)

2019 – 1,80 (um bilhão e oitenta milhões)

2020 – 1,26 (um bilhão e vinte e seis milhões)

2021 – 1,25 (um bilhão e vinte e cinco milhões)

Total em 6 anos     10,15 (dez bilhões e quinze milhões)

Acima, os gastos dos dois governos pós e pró-golpe. Ora, comprovado com a extinção da ação popular contra Dilma Roussef, seis anos depois. Observa-se, portanto, que o orçamento da Cultura no Governo Bolsonaro cai da casa dos 3 (três) bilhões do orçamento do Governo Petista para casa de um bilhão.

Sabe-se que a cultura é central sob diversos aspectos. Destaque-se a diversidade plural da sociedade brasileira que surpreende em cada canto, territorial, musical, na visualidade do que apresenta, trazendo a história e a existência, preservados no consciente e no inconsciente que atropelam a lógica dominante, acostumada com o enquadramento do outro, como propriedade privada.

Também na Pandemia do Coronavírus que paralisa o mundo, sobretudo nos anos 20 e 21 desse milênio, a resistência, a sobrevivência e a liberdade criadora que vinha se assenhorando do Brasil, na perspectiva da produção social e política da democracia, a prática do “Cultura Viva” fez valer seu acúmulo organizativo quando os trabalhadores da cultura e o Congresso Nacional homenageando o autor da “volta do irmão do Henfil”, levado pela COVID-19, no início do extermínio pensado pelo governo brasileiro, em sua atitude política genocida no tratamento de algo tão perigoso, chamado de “Gripezinha”. Aldir Blanc inspira essa saída para os primeiros paralisarem seus trabalhos para respeitar as não aglomerações.

Benedita da Silva, Jandira Feghali e Jacques Vagner, como articuladores e relatores da Lei Aldir Blanc, consolidam essa parceria com a sociedade para garantir a quantia de três bilhões, para o acesso descentralizado, em estados e municípios. A aprovação dessa Lei foi vital e definitiva para matar a fome dos trabalhadores criadores de cultura, que mantém viva a possibilidade de exibição e de criação de arte plural e diversa que alimenta os corações, a mente, o palco do teatro, do show, da vida em desafio.

Outro grande artista empresta sua memória para ser também homenageado, sustentando a continuidade da ação iniciada com Aldir, que também mantém sua ação legal para dar continuidade orgânica, nosso queridíssimo e grande ator Paulo Gustavo, em forma de manutenção do que se torna política pública de Cultura. Pode-se resumir, em termos orçamentários, diversidade e organicidade institucional que garanta verba pública para a distribuição, criação e acesso da potência cultural do Brasil.

Resumindo, temos essa gama orçamentária que vai para além de “auxílio” ou apenas prática de empreendorismo e sim a explicitação do papel do poder público na elaboração de políticas públicas de cultura, na direção do reconhecimento do lugar da cultura na construção do processo de significação, quando política é uma dessas dimensões Assim:

Lei Aldir Blanc      –  3 (três bilhões de reais)

Lei Paulo Gustavo –  3,8 (três bilhões e oitocentos milhões de reais)

Lei Aldir Blanc II – 3 (três bilhões de reais, distribuído nos próximos cinco anos)

Total                     –  9,8 (nove bilhões e oitocentos milhões de reais)

Assim, tornar essas leis emergenciais em política de Estado, aponta o ganho histórico na política pública de Cultura.

Compreensível, portanto, que o negacionismo, inspirado na “Arquitetura da destruição” esteja em processo de VETO pelo Governo Brasileiro. Certamente, o acúmulo da luta política e democrática derrubará esse veto, antes mesmo dessa publicação.

Seria conclusão?

Em números orçamentários, temos quase a correspondência do total de seis anos entre Ministério da Cultura e Secretaria da Cultura de qualquer Ministério: 10,15 (dez bilhões e centro e cinquenta milhões de reais), enquanto a resistência amealha 9,8 (nove bilhões e oitocentos milhões de reais), no passo da pandemia, 1/3, portanto, da gestão da cultura com toda dificuldade para ser chamada de pública, pois se inspira na história da “Arquitetura de destruição”.

Do ponto de vista teórico-político, podemos citar Gilles Deleuze discursando, quando da morte de Michel Foucault, em 25 de junho de 1984 e, citou, da obra deste, História da Sexualidade (FOUCALT, 1990, 12):

“De que valeria o empenho do saber se assegurasse apenas a aquisição do conhecimento, e não, de certo modo, e na medida do possível, o descaminho daquele que conhece”.

Na verdade, aqui está em questão, os caminhos de conhecimento e sua aquisição no confronto com as contradições da realidade, território das curvas do conhecimento e de sua finalidade, sempre provisória e inconclusa. Aí a Cultura encontra seu protagonismo. De que forma as tradições, memórias e acessos ou intervenções, questionam ou redirecionam o processo social de produção de conhecimento. Nessa encruzilhada também está Antônio Gramsci para testar a organicidade entre conhecimento e realidade.

Dialogando com os pressupostos descritos, podemos afirmar, a partir das políticas publicas culturais que evidenciam a expressão “Arquitetura da destruição” como inspiradora do pensamento e prática do governo atual.

A distribuição desigual do espaço/território, por outro lado, tem sido aprofundada por gestões democráticas em parceria com a sociedade civil, como podemos citar o exemplo da Casa Fluminense, na zona oeste do Rio de Janeiro, que elaborou o mapa da desigualdades no território carioca e fluminense. Essa experiência tem sido desenvolvida na Cidade de São Paulo, em São Luiz, do Maranhão, em Araraquara (SP) e em muitos outros municípios, aproveitando para as oportunidades de investimento e a passagem para a consideração com a política necrológica em curso. Pode-se falar então, em uma “Arquitetura de resistência e da construção”, que enfrenta de forma sistêmica o que acontece com a cultura, que é sintoma dos projetos urbanos, com pressupostos de ESCRAVIZAÇÃO.

Assim, pode se dizer que a cultura é o grande indicador para a potência e para a fragilidade, no enfretamento e na manutenção da desigualdade, da escravização, precarização, que resulta, aí sim, no binômio acúmulo/escassez, quando fome, população de rua e não de obra do tráfico de drogas, desafiam a repressão dos “capitães do mato”, fardados e, oficialmente, armados.

Assim, o desenho destruidor das instituições históricas do Ministério da Cultura, reduzido à Secretaria de qualquer ministério, justifica-se à palma da mão.

E para não dizer que não falamos de democracia participativa tivemos a alegria de cotejar a conquista da luta da resistência e da estratégia das experiências institucionais e dos movimentos sociais, no que nomeamos de “Arquitetura da criação, da construção e da resistência”.

Infelizmente, a discussão básica desse artigo, que parte do recorte histórico desenvolvido pelo Nazifascismo, na trágica “Arquitetura da destruição”, recebe uma comprovação tão absurda, quanto desnecessária, que traz o terrível personagem “Porciúncula”, representando a famigerada Secretaria de Cultura do Governo Federal, sorrindo ao afirmar que a Lei Rouanet irá financiar eventos com armas, bem como aquisição de armas como expressão cultural da defesa do país.

Que final inimaginável.

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